Sou fotografado, logo existo. Afinal, porque tanta selfie?

Fotografia - Helder Conceição Álbum Rua, Estilo e SOM

Se você chegou aqui esperando encontrar uma explicação para o porque da sociedade moderna se prender a esta necessidade de validação das experiências através da frenética acumulação de registros fotográficos, eu não tenho a resposta. O que eu tenho é uma série de opiniões que talvez lhe façam questionar as relações do homem moderno com a fotografia e as repercussões desta relação em si. Por exemplo: Quantas vezes você já reviu todas as suas fotografias? Não, não digo todas as fotografias postadas apenas no Facebook ou todas as fotografias postadas apenas no Instagram, mas realmente, qual foi a ultima vez que decidiu ver todas as suas fotografias armazenadas tanto nas redes sociais quanto em seu HD?

Mas afinal, não foi para isto que elas foram feitas? Para servirem de lembranças?

Há tempos a fotografia perdeu o status privilegiado de “armazenadora de memórias”. Mas também, como não seria? Em um mundo globalizado onde mudanças são tão frenéticas que já nem lembramos direito das notícias do final de semana, registrar momentos torna-se uma necessidade. A questão é que estes momentos registrados com aparente relevância no instante em que são feitos, detém um curtíssimo prazo de validade. Seja no liverview  da câmera/celular e depois para exposição aos “amigos” nas rápidas timelines das redes sociais, estas mesmas imagens tomam o rumo natural das atualizações diárias e simplesmente desaparecem.

O livro A Lentidão de Milan Kundera escrito em 1995 já profetizava: “Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (…) o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento”. Nós não nos permitimos esquecer. Somos levados a esquecer em consequência da nossa insustentável relação com o tempo. Se os momentos são ínfimos e constantes, seus registros são não apenas uma forma de se aprofundar na experiência, mas também, uma validação de nossa própria existência.

Sou fotografado, logo existo.

Tuane Eggers, fotógrafa brasileira, escreveu recentemente o artigo A Insustentável Urgência da Fotografia Contemporânea com base em seu TCC – de onde inclusive tirei a citação do livro – que nos fornece um norte importantíssimo para estes questionamentos.  Segundo ela: “(…) a imagem fotográfica tornou-se capaz de suspender esse sentimento coletivo de aceleração imposto pelo capitalismo. E essa sensação trouxe consigo o desejo de ter momentos de ruptura, de contrabalançar o tempo cronométrico, baseado no tempo dos relógios e do progresso, com momentos “especiais” e significativos. Enquanto a vida acontecia baseada no tempo estabelecido pelo sistema capitalista, que corria cada vez mais veloz, a fotografia foi uma forma de pausar esse tempo e criar o sentimento – mesmo que breve – de uma existência especial, com algum significado além do trabalho.”

A fotografia assume então um papel fundamental na formalização das experimentações sociais. É a validação de que, de fato, vivemos para além das estruturas dos meios de produção e é ao mesmo tempo também, uma validação destas sustentações de poder no momento em que, validam estas experimentações oriundas – mas não exclusivas – do trabalho. Em outras palavras, as incontáveis curtidas não são apenas um medidor de popularidade, mas a validação social de nossa existência, um grito desesperado, a quebra – mesmo que não duradoura – do acelerado tempo social das coisas.

A crise então não se estabelece pela necessidade de se registrar  cada momento, mas sim, na compreensão de que, para que estes momentos tenham existido, seu registro em imagens se torne fundamental. A máquina acumula sob este olhar  o poder de totem, equivalente ao pião do filme A Origem, que armazena em si a apropriação de nossa própria sanidade social e vai além, apresentando a nós mesmos enquanto seres invariáveis pelas lacunas do tempo, quase imortais, ainda que apenas pelos poucos minutos permitido pelas timelines das redes sociais.

 

E você, o que pensa sobre tudo isso?

 

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